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Jordevá Rosa: a trajetória do jornalista que fez do cotidiano de Goiás a sua principal notícia

jordevá rosa, jornalista goiânia

Antes de se tornar um dos rostos mais conhecidos da televisão goiana, Jordevá Rosa percorreu estradas de bicicleta para estudar, trabalhou no campo e encontrou na educação o caminho para mudar sua história. Décadas depois, sua trajetória se confunde com a própria evolução do jornalismo em Goiás.

Jordevá Rosa cresceu em uma família de origem simples. O pai trabalhava como peão de fazenda e, durante parte da juventude, a rotina esteve ligada à vida rural. Para frequentar a escola, percorria diariamente um longo caminho de bicicleta. Não havia herança, contatos influentes ou uma carreira previamente desenhada. Havia, segundo ele próprio recordaria anos depois, a consciência de que o estudo seria a principal ferramenta para mudar de vida.

Essa origem ajuda a explicar muito do comunicador que o público de Goiás conheceria mais tarde.

Mesmo depois de ocupar a bancada de um dos telejornais mais tradicionais do estado, Jordevá preservou uma forma direta de conversar. Não falava apenas sobre grandes decisões políticas, operações policiais ou acontecimentos nacionais. Falava sobre o posto de saúde, a rua sem iluminação, a família que precisava de ajuda, a dificuldade no transporte e os problemas que interferiam na vida real das pessoas.

Sua história profissional não começou diante de uma câmera. Começou com o desejo de compreender o mundo e encontrar uma forma de participar dele.

Uma cronologia documental mais ampla, com entrevistas, imagens e capítulos sobre diferentes fases da carreira, pode ser consultada na biografia completa de Jordevá Rosa.

Uma escolha que mudou o rumo da vida

O jornalismo não foi a primeira opção considerada por Jordevá Rosa.

Ainda jovem, chegou a iniciar Ciências Contábeis. Posteriormente, preparou-se para cursar Direito. A decisão de também prestar vestibular para Jornalismo surgiu perto do processo seletivo e acabou transformando completamente seu futuro.

Durante um período, cursou Direito e Jornalismo simultaneamente. Concluiu as duas formações, mas escolheu seguir profissionalmente pela comunicação. A formação jurídica, entretanto, não foi perdida. Ela passou a integrar o repertório usado para interpretar assuntos políticos, institucionais, sociais e legais que diariamente chegavam às redações.

A entrada na televisão aconteceu na TV Brasil Central. Ali, teve contato com a rotina de uma redação, a preparação de pautas, a apuração de informações, as entrevistas e a pressão para transformar acontecimentos em notícias compreensíveis para o público.

Paralelamente, trabalhou como repórter de rua na Rádio Difusora. O rádio acrescentou velocidade à sua formação: era preciso ouvir, entender e transmitir a informação com objetividade, muitas vezes enquanto os fatos ainda estavam acontecendo.

Essas primeiras experiências criaram a base para o ciclo profissional que mudaria definitivamente sua vida.

A carreira construída por dentro da notícia

Após as primeiras experiências na TV Brasil Central e na Rádio Difusora, Jordevá Rosa chegou à TV Serra Dourada.

O que poderia ter sido apenas mais uma oportunidade tornou-se uma trajetória de aproximadamente 29 anos na emissora afiliada do SBT em Goiás. Durante esse período, ele não permaneceu restrito à apresentação.

Foi repórter, realizou matérias para a rede, trabalhou com edição, coordenou programas, apresentou telejornais e assumiu responsabilidades na direção de jornalismo. Conheceu, portanto, praticamente todas as etapas necessárias para colocar uma notícia no ar.

A experiência de rua ensinou a ouvir.

A apresentação ensinou a traduzir.

A direção ensinou a decidir.

Antes que uma reportagem chegasse ao telespectador, alguém precisava avaliar sua relevância, conferir informações, distribuir equipes, organizar o tempo do programa e acompanhar o fechamento da edição. Ao assumir funções de liderança, Jordevá passou a participar também dessas decisões que o público normalmente não vê.

Isso ajuda a explicar por que sua trajetória não pode ser resumida à imagem de um apresentador sentado atrás de uma bancada.

Ele participou da construção do telejornalismo.

Quando o Jornal do Meio Dia entrou na rotina dos goianos

Durante décadas, o horário do almoço em milhares de casas de Goiás teve uma presença familiar.

A televisão era ligada, a família se reunia e o Jornal do Meio Dia apresentava os acontecimentos do estado. Nesse ambiente, Jordevá Rosa tornou-se um dos nomes mais associados ao programa e à própria TV Serra Dourada.

O telejornal combinava política, segurança, economia, saúde, educação, trânsito, cultura e prestação de serviço. No entanto, um de seus principais diferenciais estava na proximidade com a população.

Em discurso realizado durante uma homenagem da Assembleia Legislativa de Goiás, Jordevá recordou que o programa incorporava sugestões dos telespectadores como pautas de reportagem desde uma época em que essa participação acontecia principalmente por telefone e cartas. A interatividade tornou-se uma das marcas do Jornal do Meio Dia e contribuiu para sua consolidação diante do público.

Anos mais tarde, essa lógica seria ampliada pela internet e pelos smartphones.

As pessoas passaram a enviar imagens, vídeos e informações em tempo real. O quadro Repórter Cidadão ajudou a estruturar essa participação, aproximando ainda mais a redação dos bairros, das cidades do interior e das necessidades apresentadas diretamente pelos moradores.

A tecnologia mudou o meio usado para enviar a informação.

A responsabilidade do jornalista, porém, permaneceu a mesma: verificar, contextualizar e decidir o que possuía interesse público.

“A matéria mais importante é a do dia a dia”

Toda carreira jornalística possui acontecimentos extraordinários.

Grandes operações.

Eleições.

Tragédias.

Entrevistas exclusivas.

Casos de repercussão nacional.

Jordevá Rosa participou de vários deles. Ainda assim, quando foi questionado sobre a reportagem mais importante de sua trajetória, respondeu com uma ideia que ajuda a compreender sua visão profissional:

“A matéria mais importante é a do dia a dia.”

Para ele, as grandes coberturas tornam-se referências na memória de um jornalista, mas são as matérias cotidianas que constroem a confiança do público. É a presença contínua, e não apenas o acontecimento excepcional, que transforma um comunicador em parte da vida de uma comunidade.

Essa percepção está diretamente ligada ao papel do jornalismo regional.

Um telejornal nacional dificilmente dedicará vários minutos a uma rua sem pavimentação em um bairro de Goiânia, à falta de atendimento em uma unidade de saúde do interior ou à dificuldade enfrentada por uma família goiana.

Para quem vive aquela realidade, entretanto, o problema é urgente.

Ao valorizar esse tipo de pauta, Jordevá ajudou a construir um jornalismo no qual a informação também funcionava como prestação de serviço, instrumento de cidadania e ponte entre a população e o poder público.

Uma conversa na rua que abriu caminho para a medicina

Entre as histórias mais significativas da carreira está a reportagem sobre gêmeas siamesas em Goiás.

O caso começou da forma mais simples possível: alguém abordou Jordevá na rua e disse conhecer uma situação que merecia atenção.

O jornalista ouviu.

Depois de compreender a complexidade do caso, viajou com um cinegrafista para conversar com a família. Como os parentes estavam resistentes à exposição, Jordevá retirou a gravata, o cinegrafista deixou o equipamento no carro e os dois iniciaram a aproximação sem a formalidade de uma equipe de televisão.

A matéria foi posteriormente exibida no Jornal do Meio Dia. A reportagem procurava não apenas mostrar a situação, mas encontrar profissionais que pudessem analisar o caso. O médico Zacharias Calil tomou conhecimento, iniciou a preparação e participou do processo de separação das crianças, realizado com uma grande equipe em um hospital público de Goiás.

Mais do que uma reportagem de impacto, o episódio mostra o valor de uma competência básica que, às vezes, é esquecida em meio à velocidade das redes sociais: ouvir.

A história chegou à televisão porque o jornalista estava disponível para escutar uma pessoa comum na rua.

Criatividade em uma das maiores coberturas de Goiás

Outro episódio marcante ocorreu durante a cobertura do sequestro de Wellington Camargo, irmão da dupla Zezé Di Camargo & Luciano.

Após a libertação, equipes de diferentes emissoras aguardavam notícias em frente ao hospital. Wellington encontrava-se em um andar superior e os recursos tecnológicos disponíveis naquele período dificultavam uma entrevista.

A solução encontrada pela equipe foi improvisada: cabos foram unidos para permitir que o microfone alcançasse a janela. Dessa forma, a TV Serra Dourada conseguiu registrar uma das primeiras falas de Wellington depois do cativeiro.

A cena pertence a uma época muito diferente do jornalismo atual.

Não havia transmissão de alta qualidade por celular, equipamentos portáteis conectados permanentemente à internet ou a facilidade de realizar uma chamada de vídeo.

Em muitos momentos, o resultado dependia da capacidade de improvisar sem perder o compromisso com a informação.

Da fita de vídeo à tela do celular

A trajetória de Jordevá Rosa atravessa uma das maiores transformações da história da comunicação.

Quando começou, as reportagens eram gravadas em fitas. A edição dependia de equipamentos físicos e a transmissão ao vivo exigia uma estrutura técnica complexa.

Depois vieram a digitalização das redações, a internet, as câmeras mais leves, os smartphones e as redes sociais.

Na direção de jornalismo da TV Serra Dourada, Jordevá participou de projetos que procuravam adaptar o conteúdo televisivo às novas formas de consumo. Entre eles esteve a estruturação de um canal jornalístico no YouTube, apontado pelo comunicador como uma iniciativa pioneira entre emissoras de Goiás.

A mudança não aconteceu apenas nos equipamentos.

O público deixou de ser somente receptor e tornou-se também fonte de imagens e informações. A notícia passou a circular antes mesmo de chegar à redação. Ao mesmo tempo, a proliferação de conteúdos falsos ampliou a necessidade de apuração profissional.

Jordevá passou a utilizar as próprias redes sociais como canais de comunicação, recebendo informações de seguidores e distribuindo conteúdo diretamente ao público. Mas também passou a alertar para o risco das notícias falsas e da transformação de opiniões pessoais em informações apresentadas como fatos.

Uma carreira que ultrapassou a bancada

O encerramento do ciclo de 29 anos na TV Serra Dourada, em 2020, não representou o fim da trajetória de Jordevá Rosa.

O jornalista passou por outros projetos na televisão, incluindo TV Pai Eterno, TV Goiânia/Band e PUC TV Goiás, além de manter presença no rádio e nas plataformas digitais. Na TV Goiânia, por exemplo, apresentou uma proposta de programa voltada às demandas comunitárias, serviços e mobilização solidária.

A experiência acumulada também abriu caminhos fora do jornalismo diário.

Jordevá ampliou sua atuação como palestrante, mediador de debates, apresentador e mestre de cerimônias. A habilidade de interpretar roteiros, entrevistar pessoas, controlar o tempo e improvisar diante de situações inesperadas passou a ser aplicada em congressos, premiações, seminários e eventos corporativos.

Em 2025, foi convidado pelo Sistema OCB/GO para apresentar uma palestra sobre construção de relacionamento com a imprensa. Na ocasião, abordou preparação de porta-vozes, produção de releases, interesse social das pautas e a importância de mostrar o impacto concreto de uma história.

A atuação como palestrante e mestre de cerimônias não representa uma ruptura com o jornalismo.

É uma consequência dele.

O que Jordevá Rosa representa para a comunicação em Goiás

A trajetória de Jordevá Rosa ajuda a contar também a história recente de Goiás.

As reportagens das quais participou registraram eleições, mudanças urbanas, acontecimentos policiais, festas religiosas, problemas comunitários, histórias familiares e transformações sociais.

Seu percurso profissional atravessou a televisão analógica, a redação digital, o rádio, o YouTube, o Instagram e os eventos corporativos. Poucos comunicadores permanecem ativos por tempo suficiente para acompanhar tantas mudanças no comportamento do público e na tecnologia usada para produzir notícias.

Mas talvez sua contribuição mais importante não esteja apenas na quantidade de anos diante das câmeras.

Está na forma como escolheu permanecer em Goiás.

Mesmo diante de possibilidades de seguir para veículos nacionais, Jordevá relatou ter priorizado a família e a responsabilidade de cuidar dos pais. Não considera que isso tenha limitado sua carreira. Ao contrário: acredita ter conseguido realizar no jornalismo goiano aquilo que se propôs a fazer.

A decisão reforça uma mensagem presente em toda a sua história.

Uma carreira relevante não depende apenas do tamanho da emissora ou da distância alcançada pelo sinal.

Depende do impacto provocado na vida das pessoas.

Do jovem que percorria quilômetros de bicicleta para estudar ao jornalista que entrou diariamente na casa de milhares de famílias, Jordevá Rosa construiu uma trajetória ligada à persistência, à adaptação e à capacidade de ouvir.

E talvez seja justamente por isso que, depois de tantas mudanças na televisão e na comunicação, seu nome continue associado a uma ideia simples e essencial:

A notícia mais importante pode estar acontecendo agora, no cotidiano de alguém que precisa ser ouvido

Fontes e referências